Sábado, 11 de Julho de 2009

Diários de Cumuruxatiba


Abril abriu com a perspectiva da nova sede e muita, muita chuva. A vila ficou cerca de seis dias sem energia elétrica. Voltamos à era das velas, falta de geladeira, televisão, rádio, comunicações prejudicadas. Ruas enlameadas, acessos para a parte alta da vila forma se desmanchando. Em certo momento começou a preocupação com a possibilidade da falta de água e mesmo de comida,pois, sem refrigeração, ou se consumia rapidamente o alimento ou ele se estragava.

Quando a chuva dava uma trégua nos reuníamos debaixo do jamelão – aliás, carregadíssimo – no terreno do Cantagalo. Mais de uma vez o toró caiu e era criança para todo lado, correndo para casa.
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Chegou o blog MARÉ DA GENTE!


O Maré da Gente é o blog dos meninos e meninas do Projeto de Gente. Ele vem sendo trabalhado desde março/2009 nas oficinas de informática coordenadas pela Cristina Leme. O objetivo inicial dessa atividade é abrir mais um campo de expressão individual e coletiva onde a moçada do Projeto de Gente se manifeste com espontaneidade e responsabilidade. Em seguida, essa experiência procurará aprofundar a comunicação dos jovens com a sociedade desenvolvendo um jornalismo cidadão. Noções básicas de informática são assimiladas na medida em que as dificuldades surgem na prática da criação e manutenção do blog.
Toda essa atividade nos levou também a redesenhar este nosso glorioso blog permitindo que suas atualizações ficassem mais visíveis. Ao Luiz Fernando Gerhardt que o colocou no ar em 2007, nosso profundo agradecimento!
Amigos e amigas, prestigiem o blog da meninada, divulguem, registrem seus comentários e sugestões!

Vida longa ao Maré da Gente!

Domingo, 10 de Agosto de 2008

Novas publicações ... no ritmo baiano

Publicamos os DIÁRIOS DE CUMURUXATIBA mensalmente e a partir do mês de maio de 2008, a Associação Projeto de Gente no Rio de Janeiro, e o Projeto de Gente em Cumuruxatiba, no sentido de aperfeiçoar e desenvolver nosso trabalho, criou uma nova editoria chamada DEMONSTRATIVO FINANCEIRO ; além disso, temos dois textos novos em nossa editoria de REFLEXÕES: "A criança legal , A criança ilegal" e "Adultos e crianças, crianças e adultos" .

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Aí,ó!

Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

O Projeto de Gente em Cumuruxatiba

Há algum tempo vínhamos pensando na hipótese de ganhar experiência e força iniciando o trabalho em algum lugar pequeno. Percebemos uma possível vantagem em iniciar o projeto em um local menos tensionado pela queda de braço que se organiza entre as estruturas da cidade grande; um lugar onde, quem sabe, poderemos com mais facilidade alcançar, além das crianças, seus pais, mães, avós e avôs, abranger outros cenários de atuação, envolver mais atores, mais saberes e necessidades.

O Monte Pascoal

Foi, então, que apareceu Cumuruxatiba em nosso horizonte. Neste lugar, ponto do primeiro encontro entre os europeus com os nativos da terra que viria a se chamar Brasil, campo primário da extraordinária mestiçagem que combina qualidades e que, assim, organiza novas possibilidades, encontramos as condições mais propícias para assentar o Projeto de Gente.

O azul turqueza do mar de Cumuru

Fomos apresentados por um descendente da generosidade da terra, pois, não tendo nascido nela, foi por ela reconhecido como nativo por conta do imenso respeito e atenção que dedicou às pessoas que ali nasceram.

E, ali, nascem crianças, muitas crianças, de olhos grandes como jabuticabas, olhos muito brasileiros, filhos dos de pele clara com os de pele escura ou avermelhada, filhos daqueles de ancestrais cabelos africanos com os de lisos cabelos tupiniquins.

Quem leva quem?

São crianças que aprendem o que podem na escola e também junto a seus pais e mães pescadores, mercadores, eletricistas, pedreiros, barqueiros, cozinheiras, que, por sua vez, abandonaram a mesma escola ali pelos 10 ou 11 anos ainda curiosos mas desmotivados... e seguiram a rota já traçada que, para muitos, não leva ao destino mais abrangente e feliz.


Nego, Carlinha e Ester

Vale dizer que este amigo que nos apresentou Cumuruxatiba já havia nos oferecido uma casa para a implantação do Projeto. Pois bem, fomos lá para conhecer as pessoas, a cidade, sua energia e expectativas e também para nos apresentar, apresentar nossas idéias, nossos corações. Voltamos decididos a fazer este movimento, pois as indicações de que Cumuruxatiba é mesmo um belo local para iniciar o Projeto de Gente foram muito claras.

Durante os dias que passamos lá foi ficando mais claro o que estávamos percebendo: implantar o Projeto num lugar menos tensionado por forças de difícil conciliação como as que existem na cidade grande pode ser algo muito adequado e protetor para que toda a estrutura do Projeto se fortaleça e vingue (note que dizemos “menos tensionado”, não “distensionado”, pois claro que lá também existem tensões, porém menos intensas).

A carência de um campo de suporte mais abrangente para as crianças fora da escola também ficou bem evidente. As crianças são criadas em liberdade, porém liberdade não é suficiente, é necessário um cuidado, uma certa e delicada atenção para que os caminhos dessas crianças não se confundam enquanto ainda são descobertos por elas mesmas.

Conhecemos pais e mães que gostariam de ter pessoas que estudassem com seus filhos e filhas depois da escola porque eles mesmos não podem, não sabem como fazê-lo, pois muitos são quase analfabetos.

Não vamos “trombar” com a escola do local – ela é conduzida (conhecemos uma professora e conversamos bastante) com muito carinho e belas intenções -, vamos, fora da escola, brincar, estudar e estar junto das crianças com os conceitos do Projeto de Gente, da Pedagogia Libertária, das Escolas Democráticas e, aos poucos, demonstrar e apresentar novos conceitos e alternativas à escola local.
Também percebemos que podemos trabalhar com pessoas mais velhas, adultos que, por variados motivos, abandonaram a escola e gostariam de retomar os estudos.

Objetivo Geral

A citação do significado da expressão ‘’Cultura da Paz’’, segundo a UNESCO, irá ajudar na compreensão dos objetivos do Projeto de Gente:

“A Cultura da Paz é a paz em ação, isto é, o pleno respeito aos direitos humanos no dia a dia das pessoas. Trata-se de criar condições para que as pessoas sejam capazes de conviver, de criar um novo sentido de compartilhar, ouvir e zelar umas pelas outras. Implica assumir a responsabilidade pela participação numa sociedade democrática que luta contra a pobreza e a exclusão social, ao mesmo tempo que garante a igualdade política, a eqüidade social e a diversidade cultural.”

Toda nossa estratégia estará, em algum ponto, ligada a este tema.

Outro ponto de grande importância e também diferencial neste empreendimento é a profunda valorização daqueles que fazem mater-paternagem das crianças.

Usamos o termo mater-paternagem para, merecidamente e com muito respeito, incluir todos aqueles que cumprem, por variadas motivações, a delicada função de pais e mães de qualquer criança. Ora, um projeto que pretende oferecer-se como campo de desenvolvimento para qualquer criança não pode deixar de valorizar aqueles que certamente foram, e provavelmente ainda são, fundamentais – muitas vezes apenas da forma possível - à sua existência. Assim, sólidos canais de interlocução serão estabelecidos com os responsáveis das crianças. De fato, mais que simples interlocução, serão co-participantes na gestão do projeto.

O Projeto de Gente oferece, em síntese:

1- atenção à Individuação – um lugar onde não se valoriza apenas a média ou, pior e por lógica, o superior (qualificado, elogiado) e o inferior (desqualificado, humilhado);
2- uma forma de estudar que, ultrapassando um mero treinamento cognitivo, funda-se em trocas afetivas e emocionais que proporcionam estímulo e alegria criativa a este ato – no Projeto, a hora de estudar, fazer deveres é vivida com grande prazer, sendo impossível dissociá-la da hora do lazer;
3- contribuição ao desenvolvimento pedagógico da criança em sua escola – isto é, contribui para que suas crianças sejam capazes de desenvolver suas habilidades e se aprofundar em qualquer área do conhecimento humano que lhes atraia;
4- desenvolvimento da consciência corporal que estimula a aquisição de força interior e alegria;
5- o desenvolvimento do saber cuidar através da promoção de autonomia e solidariedade, respeito ao outro e contato com o amor-próprio - isto é, busca a formação de cidadãos responsáveis por suas ações e capazes de determinar o curso e a dimensão de suas atividades, ajustadas consigo mesmos e capazes de aprender com as diferenças;
6- promoção e exercício prático, objetivo e cotidiano de uma real Cultura para a Paz; e
7- saúde.

Breve Histórico

Ao constatar, ao longo de 24 anos de prática como clínico geral, médico homeopata e psicoterapeuta, a insuficiência do modelo de saúde em promover um estado de bem estar realmente integral, Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti reuniu um grupo de amigos, profissionais de diferentes áreas mas com semelhante anseio, para discutir sobre como buscar esta possibilidade. Formou-se, assim, o grupo de trabalho responsável pela elaboração inicial do Projeto de Gente e que também gerou a criação, em março de 2003, da Associação Projeto de Gente (CNPJ – 05.959.844/0001-88).

Estas pessoas passaram a realizar encontros semanais com o intuito de elaborar e implantar um método de trabalho no qual se contemple uma aparentemente simples, porém básica, constatação: o estado de bem estar é percebido quando estamos bem “internamente”, isto é, quando a pessoa se sente bem consigo mesma, saciada em relação às necessidades básicas pessoais.

Uma conclusão aparentemente óbvia, não fosse a dificuldade que cada um de nós tem em reconhecer quais são essas necessidades, pois nascemos sem nada saber a respeito de nós mesmos; isto é, não temos consciência de quem somos. Além disso, se não sabemos quem somos, também aqueles que nos recebem e nos rodeiam, tampouco nos conhecem. Esta é a tremenda vivência a que estamos expostos ao nascer: não nos sabemos e ninguém sabe quem somos.

Esta observação – “estou bem quando estou bem comigo mesmo” -, embora simples, é extremamente delicada e de complexa organização, pois, estar bem consigo mesmo, eqüivale estar saciado nas necessidades pessoais básicas, mas também implica estar assegurado quanto a possibilidade de reconhecer, serena e claramente, tais necessidades; e, jamais devemos esquecer, nossas necessidades básicas se expressam, indistintamente, tanto no campo emocional quanto no físico.

De fato, para nos sentirmos realmente bem será preciso perceber que somos uma unidade dinâmica: corpo (físico - visível) e alma (psique, mente - invisível), corpo-alma, corpoalma.

Alguém impedido de alcançar uma fonte alimentar básica para sua existência vai, inevitavelmente, apresentar sintomas de carência deste elemento. Por exemplo, se lhe falta água, os sinais de desidratação aparecerão sem dúvida.

Se do ponto de vista objetivo isto salta à vista, com a mesma clareza podemos refletir a respeito do invisível mundo de nossa sensibilidade.

Se não reconhecemos e atendemos nossas necessidades emocionais essenciais – uma sensibilidade completamente pessoal - iremos, também sem dúvida, manifestar sinais. Sinais que ficarão claros em ações confusas e numa angustiada e sofrida expressão do ser em sua relação cotidiana com o mundo.

Tais necessidades emocionais – nem boas nem más - são, podemos dizer, nossa identidade e nossa intimidade: nossa Individuação, nossa singularidade. Uma sensibilidade que, embora com conteúdos compartilhados com todos os demais seres humanos, é, em seu arranjo final, absolutamente única, pessoal. O que estamos dizendo é que, assim como somos constituídos das mesmas substâncias – glicose, glóbulos vermelhos, sódio e potássio, por exemplo – e ninguém as tem organizadas da mesma maneira (uma quase impossibilidade estatística), o mesmo acontece em relação ao mundo das emoções e sensibilidades. Todos possuímos as mesmas – medo, insegurança, alegria, tristeza, por exemplo – mas, também aqui, as organizamos de um modo único (ninguém sente medo como o outro o sente): a INDIVIDUAÇÃO. Assim, o que é particularmente sensível a um não o será necessariamente para outro; o que não significa nem maior nem menor vantagem ou superioridade, apenas distingue.

O psicólogo James Hillman sintetizou, de modo simples e claro:

”...para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você.” (em “O Código do Ser”)

Entre os seres humanos o conhecimento desta singularidade – dado que não a sabemos de antemão - é alcançado através das experiências que o cotidiano nos oferece.

Este projeto de trabalho chama atenção para a imensa responsabilidade dos adultos, que devem oferecer campo adequado para que suas crianças tenham a mais ampla possibilidade de conhecer e respeitar a si próprias; possibilitando, portanto, o reconhecimento do amor-próprio que alimenta a própria individuação e a construção de uma serena auto-estima, bases para o exercício do respeito ao outro e do direito de ser singular e incluído socialmente.

O desenvolvimento de uma individuação sadia gera exatamente o contrário de um movimento egoísta, individualista (daí a importância do termo individuação, e não individualidade, para que exista uma clara distinção entre os dois movimentos), sendo, portanto, base também para a construção de uma sociedade sem preconceitos, serena, progressivamente evoluída e saudável.

Fica também claramente evidenciado que este projeto é também um projeto de saúde, saúde em sua manifestação mais integral e plena. Aliás, a este respeito disse o médico e educador polonês Janusz Korczak: “Sem uma infância serena, toda a vida, em seguida, é apenas uma enfermidade.”

Queremos, portanto, sublinhar um ângulo, para nós fundamental, em relação ao amplo problema do desenvolvimento e integração de nossas crianças e jovens à uma vida ativa e plena: o freqüente desinteresse, e eventual desprezo, por sua Individuação. Tal desinteresse, é sempre bom lembrar, se dá por motivos variados e, muitas vezes, compreensíveis.

Pois bem, com o aprofundamento dessas e outras questões, o grupo atraiu adeptos e cresceu. Todos tinham, agora, uma certeza: o estado de se sentir bem consigo mesmo devia ser trabalhado desde a mais tenra idade, com a criança, com os pequeninos ou, se quiserem, com os pequeninos projetos de gente.