Quando a chuva dava uma trégua nos reuníamos debaixo do jamelão – aliás, carregadíssimo – no terreno do Cantagalo. Mais de uma vez o toró caiu e era criança para todo lado, correndo para casa.
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O Projeto de Gente tem como missão criar um campo de atendimento e real atenção, respeito e cuidado a crianças e jovens. Os corações e mentes de nossos trabalhadores estarão, permanentemente, abertos para ouvir os sinais que expressam um mistério que está inscrito em cada um de nós... “a particularidade que você sente que é você.” (J. Hillman).

Foi, então, que apareceu Cumuruxatiba em nosso horizonte. Neste lugar, ponto do primeiro encontro entre os europeus com os nativos da terra que viria a se chamar Brasil, campo primário da extraordinária mestiçagem que combina qualidades e que, assim, organiza novas possibilidades, encontramos as condições mais propícias para assentar o Projeto de Gente.
O azul turqueza do mar de Cumuru
Fomos apresentados por um descendente da generosidade da terra, pois, não tendo nascido nela, foi por ela reconhecido como nativo por conta do imenso respeito e atenção que dedicou às pessoas que ali nasceram.
E, ali, nascem crianças, muitas crianças, de olhos grandes como jabuticabas, olhos muito brasileiros, filhos dos de pele clara com os de pele escura ou avermelhada, filhos daqueles de ancestrais cabelos africanos com os de lisos cabelos tupiniquins.
Quem leva quem?
São crianças que aprendem o que podem na escola e também junto a seus pais e mães pescadores, mercadores, eletricistas, pedreiros, barqueiros, cozinheiras, que, por sua vez, abandonaram a mesma escola ali pelos 10 ou 11 anos ainda curiosos mas desmotivados... e seguiram a rota já traçada que, para muitos, não leva ao destino mais abrangente e feliz.
Nego, Carlinha e Ester
Vale dizer que este amigo que nos apresentou Cumuruxatiba já havia nos oferecido uma casa para a implantação do Projeto. Pois bem, fomos lá para conhecer as pessoas, a cidade, sua energia e expectativas e também para nos apresentar, apresentar nossas idéias, nossos corações. Voltamos decididos a fazer este movimento, pois as indicações de que Cumuruxatiba é mesmo um belo local para iniciar o Projeto de Gente foram muito claras.
Durante os dias que passamos lá foi ficando mais claro o que estávamos percebendo: implantar o Projeto num lugar menos tensionado por forças de difícil conciliação como as que existem na cidade grande pode ser algo muito adequado e protetor para que toda a estrutura do Projeto se fortaleça e vingue (note que dizemos “menos tensionado”, não “distensionado”, pois claro que lá também existem tensões, porém menos intensas).
A carência de um campo de suporte mais abrangente para as crianças fora da escola também ficou bem evidente. As crianças são criadas em liberdade, porém liberdade não é suficiente, é necessário um cuidado, uma certa e delicada atenção para que os caminhos dessas crianças não se confundam enquanto ainda são descobertos por elas mesmas.
Conhecemos pais e mães que gostariam de ter pessoas que estudassem com seus filhos e filhas depois da escola porque eles mesmos não podem, não sabem como fazê-lo, pois muitos são quase analfabetos.
Não vamos “trombar” com a escola do local – ela é conduzida (conhecemos uma professora e conversamos bastante) com muito carinho e belas intenções -, vamos, fora da escola, brincar, estudar e estar junto das crianças com os conceitos do Projeto de Gente, da Pedagogia Libertária, das Escolas Democráticas e, aos poucos, demonstrar e apresentar novos conceitos e alternativas à escola local.
Também percebemos que podemos trabalhar com pessoas mais velhas, adultos que, por variados motivos, abandonaram a escola e gostariam de retomar os estudos.