
O belo mito grego que narra a história do Centauro Quíron, o médico ferido, vai ilustrar com poética propriedade a alma deste empreendimento, pois Quíron descobriu, na própria pele, o que muitas culturas, algumas muito antigas, denominam a Imagem Primordial da Alma: o misterioso centro da personalidade de cada indivíduo - a semente que tenta a todo custo desenvolver-se e manifestar-se, o verdadeiro “repositório do destino individual”, com disse Hillman.
A história de Quíron
Filho do deus Crono e de Fílira, era também divino e possuía, portanto, o atributo da imortalidade.
Meio cavalo-meio humano, Quíron identificava-se com os seres humanos, era amigo deles e ensinava-lhes música, a arte da guerra e da caça, além de exercer a medicina, pois conhecia as propriedades curativas de certas ervas. Entretanto, ainda não tinha consciência do quanto conheceria e compreenderia os humanos, nem do quanto sua forma de ser médico se desenvolveria.
Amigo de Hércules, o centauro foi, inadvertidamente, atingido por uma flecha envenenada disparada por ele. O veneno mágico provocava uma ferida que, embora não matasse, não cicatrizava, nunca curava. Uma ferida que, como toda ferida, quando tocada doía muito, insuportavelmente. Quíron aprendeu que precisava proteger aquele lugar.
Para ele, proteger significava cuidar, e, para cuidar da melhor maneira, precisava então conhecer bem aquele ponto de sensibilidade.
Pois foi exatamente por isto, que Quíron compreendeu profundamente quem eram os humanos.
O centauro ferido percebeu que todos possuem um lugar em seu ser de extrema sensibilidade; uma ferida, podemos dizer. Uma ferida que nunca fecha. Percebeu que isto não acontecia apenas no corpo, estava de fato presente no interior de cada um, em seu íntimo. Havia uma ferida na alma.
Percebeu - por sentir em si mesmo a dor...e, daí, o medo de vir a sentir esta dor – que, embora todos possuíssem uma ferida, em cada um ela era única, absolutamente pessoal. De fato, constituía uma sensibilidade que identificava aquela pessoa.
Aprendeu que se reconhecêssemos, aceitássemos e cuidássemos da ferida, vale dizer, se reconhecêssemos, aceitássemos, nossa sensibilidade, poderíamos viver com maior tranqüilidade e serenidade, pois, ela – a ferida - não impede a vida; pede apenas atenção e cuidados. Na verdade, em seu sentido mais profundo, esta sensibilidade revela a vida, pois será de acordo com ela que aquela singular pessoa se sentirá realmente viva.
Agir assim significa reconhecer quem cada um é, aceitar quem é e encontrar a melhor maneira de cuidar de si mesmo.
Compreendeu que se nos rebelássemos contra esta sensibilidade pessoal, negando-a, estaríamos inevitavelmente construindo um grande mal estar. Quíron, o médico ferido, apontava para a gênese da doença em seu sentido mais radical.
Na gruta do Monte Pélion, onde vivia, o centauro orientou vários curadores, entre eles Jasão e Asclépio, sempre ensinando que a possibilidade de cura mais profunda estava no contato e aceitação com nossa sensibilidade mais íntima, com nossa condição única de ser.
Outro aspecto de imensa importância percebido por Quíron foi que, quando conhecemos e respeitamos a nós mesmos, a chance de nos abrir para conhecer e respeitar o outro aumenta muito. Vislumbrava, por conseguinte, a possibilidade de construção de uma sociedade mais justa e sadia.
Entretanto, sua condição imortal trazia-lhe angústia infinita. A imortalidade era incompatível com a vida, pois a dor, embora conhecida e cuidada era, para ele, eterna e, por isso, insuportável. Os humanos podiam morrer, o médico ferido não.
Compadecido, Zeus - ouvindo os conselhos de Hercúles, infatigável em sua luta por minorar o sofrimento que involuntariamente provocara no amigo -, aproveitou uma circunstância favorável e trocou a imortalidade de Quíron pela mortalidade do humano Prometeu, que nascera mortal, mas conquistara, por suas atitudes durante a vida, a condição divina.
O médico pôde, enfim, morrer.
Homenageado pelos deuses transformou-se na constelação de Sagitário, o centauro que lança a flecha, que um dia o envenenou, mas agora simboliza a trajetória daquele que, através do conhecimento e da aceitação profunda de si mesmo, soube perceber também a dor e sensibilidade do outro e ensinou como cuidar desta condição. Além do mais, reconheceu aí a origem da doença – e a busca da cura - no ser humano.
Quíron nos fala, portanto, da necessidade de reconhecer e respeitar quem somos e quem cada um é; de se conhecer a vocação vital de cada um, não apenas a vocação profissional como é nosso hábito, mas a profunda vocação do ser; e, sendo, contribuir com o que melhor temos a oferecer para a organização da vida abundante.
O Médico Ferido coloca esta possibilidade na base da construção de uma vida realmente saudável. Leva radicalmente a sério a antiga citação: “mente sã em corpo são.” Radicalmente, pois, para ele, não há um sem outro, nem outro sem um.
Junito Brandão, dedicado ao estudo e ensino das culturas antigas, ouvia os mitos e dizia:
“Cada nação, cada cidade, cada povo, cada casa, cada família, cada homem tem o seu Centro do Mundo, seu “ponto de vista”, seu ponto imantado, que é concebido como ponto de junção entre o desejo-necessidade - coletivo ou individual – e... que (alimenta)... a possibilidade sobrenatural de satisfazer a esse desejo-necessidade...”
Este parágrafo está em completa harmonia com o significado do mito de Quíron, o mestre de Asclépio – o Esculápio dos latinos -, filho de Apolo e da mortal Corônis, tão talentoso na arte de curar que chegou a ressuscitar algumas pessoas, e foi, por isso, fulminado por Zeus que temeu um possível transtorno da ordem do universo.
Asclépio, um dos deuses mais longevos de todo o panteão divino grego, também vai nos ajudar a compreender o Projeto de Gente.
Ele criou uma Escola de Medicina e Centro de Saúde em Epidauro, na Grécia, que seguia os ensinamentos de seu mestre, sintetizado no conhecido dito: “Conhece-te a ti mesmo”.
Na entrada de seu santuário de cura, gravou as seguintes palavras:
“Puro como aquele que entra no Templo. Pureza significa ter pensamentos sadios.”
Puro, no sentido do pensamento grego, é aquele que busca, incansável, alcançar o seu centro, seu templo.
Em profunda sintonia consigo mesmo, ele terá pensamentos, sentimentos e ações saudáveis e construtivos, puros e originais. Neste centro muitos identificam o que é chamado de divino - um divino que é também humano - ao qual devemos nos religar, respeitar, amar e oferecer ao mundo.
Em Epidauro, todas as ações de cura tinham como objetivo promover o autoconhecimento, a alcançar a mais pura consciência de si mesmo, ponto de partida para a transformação dos sentimentos e ações reativas e equivocadas em atitudes harmônicas e saudáveis.
Lá havia um pequeno teatro, o Odeon; um Estádio, para competições esportivas; um Ginásio, para exercícios físicos; também um grande Teatro; e uma Biblioteca. Todo este conjunto visava a elevação espiritual e a humanização dos que procuravam cuidar-se. Havia também uma sala onde as pessoas dormiam, sonhavam e contavam seus sonhos – a mais arcaica fonte de contato com nosso mundo íntimo - para que fossem interpretados pelos médicos, que então prescreviam tratamentos, com uso de cores e águas, por exemplo.