Ao constatar, ao longo de 24 anos de prática como clínico geral, médico homeopata e psicoterapeuta, a insuficiência do modelo de saúde em promover um estado de bem estar realmente integral, Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti reuniu um grupo de amigos, profissionais de diferentes áreas mas com semelhante anseio, para discutir sobre como buscar esta possibilidade. Formou-se, assim, o grupo de trabalho responsável pela elaboração inicial do Projeto de Gente e que também gerou a criação, em março de 2003, da Associação Projeto de Gente (CNPJ – 05.959.844/0001-88).
Estas pessoas passaram a realizar encontros semanais com o intuito de elaborar e implantar um método de trabalho no qual se contemple uma aparentemente simples, porém básica, constatação: o estado de bem estar é percebido quando estamos bem “internamente”, isto é, quando a pessoa se sente bem consigo mesma, saciada em relação às necessidades básicas pessoais.
Uma conclusão aparentemente óbvia, não fosse a dificuldade que cada um de nós tem em reconhecer quais são essas necessidades, pois nascemos sem nada saber a respeito de nós mesmos; isto é, não temos consciência de quem somos. Além disso, se não sabemos quem somos, também aqueles que nos recebem e nos rodeiam, tampouco nos conhecem. Esta é a tremenda vivência a que estamos expostos ao nascer: não nos sabemos e ninguém sabe quem somos.
Esta observação – “estou bem quando estou bem comigo mesmo” -, embora simples, é extremamente delicada e de complexa organização, pois, estar bem consigo mesmo, eqüivale estar saciado nas necessidades pessoais básicas, mas também implica estar assegurado quanto a possibilidade de reconhecer, serena e claramente, tais necessidades; e, jamais devemos esquecer, nossas necessidades básicas se expressam, indistintamente, tanto no campo emocional quanto no físico.
De fato, para nos sentirmos realmente bem será preciso perceber que somos uma unidade dinâmica: corpo (físico - visível) e alma (psique, mente - invisível), corpo-alma, corpoalma.
Alguém impedido de alcançar uma fonte alimentar básica para sua existência vai, inevitavelmente, apresentar sintomas de carência deste elemento. Por exemplo, se lhe falta água, os sinais de desidratação aparecerão sem dúvida.
Se do ponto de vista objetivo isto salta à vista, com a mesma clareza podemos refletir a respeito do invisível mundo de nossa sensibilidade.
Se não reconhecemos e atendemos nossas necessidades emocionais essenciais – uma sensibilidade completamente pessoal - iremos, também sem dúvida, manifestar sinais. Sinais que ficarão claros em ações confusas e numa angustiada e sofrida expressão do ser em sua relação cotidiana com o mundo.
Tais necessidades emocionais – nem boas nem más - são, podemos dizer, nossa identidade e nossa intimidade: nossa Individuação, nossa singularidade. Uma sensibilidade que, embora com conteúdos compartilhados com todos os demais seres humanos, é, em seu arranjo final, absolutamente única, pessoal. O que estamos dizendo é que, assim como somos constituídos das mesmas substâncias – glicose, glóbulos vermelhos, sódio e potássio, por exemplo – e ninguém as tem organizadas da mesma maneira (uma quase impossibilidade estatística), o mesmo acontece em relação ao mundo das emoções e sensibilidades. Todos possuímos as mesmas – medo, insegurança, alegria, tristeza, por exemplo – mas, também aqui, as organizamos de um modo único (ninguém sente medo como o outro o sente): a INDIVIDUAÇÃO. Assim, o que é particularmente sensível a um não o será necessariamente para outro; o que não significa nem maior nem menor vantagem ou superioridade, apenas distingue.
O psicólogo James Hillman sintetizou, de modo simples e claro:
”...para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você.” (em “O Código do Ser”)
Entre os seres humanos o conhecimento desta singularidade – dado que não a sabemos de antemão - é alcançado através das experiências que o cotidiano nos oferece.
Este projeto de trabalho chama atenção para a imensa responsabilidade dos adultos, que devem oferecer campo adequado para que suas crianças tenham a mais ampla possibilidade de conhecer e respeitar a si próprias; possibilitando, portanto, o reconhecimento do amor-próprio que alimenta a própria individuação e a construção de uma serena auto-estima, bases para o exercício do respeito ao outro e do direito de ser singular e incluído socialmente.
O desenvolvimento de uma individuação sadia gera exatamente o contrário de um movimento egoísta, individualista (daí a importância do termo individuação, e não individualidade, para que exista uma clara distinção entre os dois movimentos), sendo, portanto, base também para a construção de uma sociedade sem preconceitos, serena, progressivamente evoluída e saudável.
Fica também claramente evidenciado que este projeto é também um projeto de saúde, saúde em sua manifestação mais integral e plena. Aliás, a este respeito disse o médico e educador polonês Janusz Korczak: “Sem uma infância serena, toda a vida, em seguida, é apenas uma enfermidade.”
Queremos, portanto, sublinhar um ângulo, para nós fundamental, em relação ao amplo problema do desenvolvimento e integração de nossas crianças e jovens à uma vida ativa e plena: o freqüente desinteresse, e eventual desprezo, por sua Individuação. Tal desinteresse, é sempre bom lembrar, se dá por motivos variados e, muitas vezes, compreensíveis.
Pois bem, com o aprofundamento dessas e outras questões, o grupo atraiu adeptos e cresceu. Todos tinham, agora, uma certeza: o estado de se sentir bem consigo mesmo devia ser trabalhado desde a mais tenra idade, com a criança, com os pequeninos ou, se quiserem, com os pequeninos projetos de gente.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
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Um comentário:
Desejo que os participantes do projeto estejam preparados e cientes de que estarão convivendo com gente.
Que estes tenham lucidez, saúde e compreensão das suas responsabilidades.
Desejo a todos um excelente trabalho!
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